domingo, setembro 02, 2007

A última crónica de Eduardo Prado Coelho



Nesta minha “rentré bloguística”, tinha pensado escrever hoje sobre alguns factos ocorridos enquanto eu andava a banhos. É possível que isso ainda venha a acontecer, mesmo sabendo que corro o risco de que a sua publicação seja um bocado a destempo e esses factos possam estar já um pouco desactualizados. De qualquer forma, nos próximos tempos, tentarei que aqui fiquem registados.


Mas um acontecimento veio alterar este meu propósito. A morte de Eduardo Prado Coelho. Professor universitário, crítico literário, jornalista, escritor, ensaísta e homem da cultura, Prado Coelho era sobretudo um Pensador, um homem que conseguia ser simultaneamente o intelectual brilhante e o cronista que falava, escrevia e sentia os problemas do dia a dia e que sabia transmiti-los magistralmente.

Por isso, neste regresso, não tive qualquer dúvida em escolher para tema do dia a figura de Eduardo Prado Coelho. E, querendo prestar-lhe uma homenagem singela, passo a transcrever a última crónica que escreveu no Jornal Público, no passado Domingo 26 de Agosto, exactamente o dia em que se realizou o seu funeral.

Vou sentir a falta dos seus textos.





“Ai simplex!

Há momentos em que nos damos conta de que o Simplex, essa excelente e meritória iniciativa concebida por Maria Manuel Leitão Marques, está a funcionar, mas há outras em que choramos pela sua ausência, na expectativa de que um dia, não demasiado longínquo para a nossa esperança de vida, chegue. Dei-me conta disso ao acompanhar e mesmo participar no processo de legalização em Portugal de alguém que trabalha em minha casa há já algum tempo, e que, pelas suas capacidades profissionais, e sobretudo pelas suas qualidades humanas (como pude comprovar em período recente da minha existência) é pessoa de quem é fácil gostarmos: a brasileira Maria Nágila Bezerra, pessoa de permanente bom humor, que ri mesmo quando conta as mais terríveis tropelias a que possa ter sido sujeita.
Sucede que há algumas semanas atrás começou a não aparecer ou a chegar mais tarde. Não se tratava, como vim a saber, de deambulações existenciais por montes e vales, nem mesmo de acessos místicos, mas antes de razões infelizmente mais prosaicas: ia ao SEF. Rapidamente descobri que se tratava do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. E pude compreender que o modo de funcionamento desta instituição nem sempre teria aquela perfeição que nós desejaríamos para um serviço público em área tão sensível como esta. Comprova-se que, se por vezes encontramos funcionários amáveis e colaborantes, desejosos de nos facilitar a vida, outras há em que nos confrontamos com pessoas stressadas e amarguradas pelo amarelo das paredes e os dramas conjugais para os quais quase nunca contribuímos mas de que pagamos as implacáveis consequências. Para ir ao SEF, a Nágila levantava-se antes de o Sol nascer para se deslocar de Alverca até Lisboa, onde, às portas do SEF, se organizava uma fila imensa de pessoas que esperavam cinco e seis horas para serem atendidas. E quem as atendia? Gente zangada com a vida que parecia ter uma especial volúpia em criar dificuldades: incapazes de explicarem tudo o que as pessoas precisavam de levar, incapazes de perceberem que as pessoas que atendiam tinham certas limitações na compreensão dos mecanismos burocráticos portugueses, descobriam sempre mais papéis que faltavam, o que obrigava a recomeçar tão exaltante peregrinação.
Tenho à minha frente o papel que acabou, ao cabo de porfiados esforços, por lhe ser dado e que, num português em que "há menos" se escreve "à menos", se intitula "Renovação de Autorização de Permanência Temporária para Trabalho subordinado", esclarecendo-se, para consolo das nossas almas, que é ao abrigo do art. 217, n.º 1, da Lei 23/207 de 04 de Julho. Que é preciso? Um passaporte válido, um comprovativo das condições de alojamento (contrato ou atestado da Junta de Freguesia), declaração do IRS e cópia da nota de liquidação relativa ao ano fiscal anterior, contrato de trabalho e declaração actualizada da entidade patronal a atestar o vínculo laboral, declaração da Segurança Social regularizada a confirmar os descontos efectuados, requerimento em impresso de modelo próprio (www.sef.pt) e duas fotografias. Com todas estas tarefas, por sucessivos dias, a Nágila deixou de aparecer. Andava por Alverca e Lisboa à procura de papéis - belo ideal de vida. Única vantagem: aprimorei a minha capacidade de fazer camas. E vou melhorando noutras tarefas domésticas.”


PS: Relativamente a Nágila Bezerra, Eduardo Prado Coelho não se limitou a escrever a crónica acima nem, tão-pouco, a pagar os dias em que a sua empregada não trabalhou em sua casa por andar numa roda viva à procura dos papéis necessários para renovar o visto de residência. Prado Coelho foi um dos mais fiéis apoiantes desta difícil causa e, com esta última crónica, conseguiu sensibilizar a secretária de Estado da Reforma Administrativa, e de tal maneira, que Nágila recebeu na última quinta-feira o tão ansiado visto.

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