segunda-feira, junho 30, 2008

Entre o Heterónimo e o Pseudónimo

Há muito que me interrogo sobre a verdadeira diferença entre um heterónimo e um pseudónimo. Oiço falar nuns e noutros e, à falta de quem me dê uma explicação suficientemente aceitável, contento-me com o meu velho dicionário que me vai adiantando, embora não me sossegue, que:

Um Heterónimo “é nome imaginário com que um autor assina a sua obra, atribuindo a esse autor imaginário características individuais diferentes das do verdadeiro autor, ou seja, criando um outro eu”.

E um Pseudónimo “é um nome falso ou suposto”.

Leio vezes sem conta o que o dicionário teima em diferenciar mas continuo sem perceber
lá muito bem onde reside a dissemelhança. Se um heterónimo significa um nome imaginário e um pseudónimo um nome falso, como distinguir um do outro?

Garantem os entendidos que os heterónimos constituem uma personalidade (que têm “alma”), ao contrário dos pseudónimos.

Se calhar é essa a diferença, se os peritos o dizem ... que seja. Ao fim e ao cabo, um heterónimo é algo que não existe mas que tem uma personalidade, um estilo, uma “vida”.

O que sei, e isso é seguro, é que Fernando Pessoa criou vários heterónimos que se tornaram tão famosos como o próprio Pessoa. Os mais conhecidos dos quais são Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. Todos eles muito importantes e de quem, a seu tempo, trarei aqui pequenos fragmentos das suas obras. Fica prometido.


quinta-feira, junho 26, 2008

Encaremos a vida por um outro prisma

Bem, o fim-de-semana está a começar, o tempo de praia faz-se sentir pleno de sol e de calor, as férias tão desejadas estão para chegar e o Ministério das Finanças anunciou que o reembolso do IRS já começou. Que mais é que vão desejar?

Com tantas coisas boas e sabendo-se que desde 19 de Maio último (já lá vão 38 dias) todo o dinheirinho que ganhamos é inteiramente nosso e que podemos gastá-lo como nos der na realíssima gana, só temos motivos para andarmos alegres. Ainda que o desaire da nossa selecção de futebol teime em nos ensombrar a vida.

Então, perguntarão, até 19 de Maio o dinheiro que conseguíamos ganhar com o suor do nosso rosto não nos pertencia? Respondo: não, de todo. Quero dizer, por direito ele era nosso mas, na verdade, o dinheiro auferido até então, era única e exclusivamente para pagar impostos. Só a partir do dia 20 de Maio, o imenso vencimento arrecadado em cada mês vem inteirinho para os nossos bolsos.

Pois é, se não sabiam, ficam a saber que não é só abrir as mãos e aceitar as coisas boas que o Estado nos dá. Ele exige-nos, como contrapartida, o cumprimento das nossas obrigações fiscais. Qualquer coisa como “dá com uma mão e retira com a outra”. Isto, sem falar - nem nos interessa neste momento - nos outros impostos que vamos pagando alegremente durante todo o ano, como sejam o IVA, o ISP e quejandos. Mas isso são outras conversas.

Por isso vos desafio a tentar encarar a vida por um outro prisma, de uma forma mais optimista, se possível. Pelo que, e desobrigados já da carga fiscal a que estavam acorrentados, para se tornarem mais alegres e confiantes (não, não estou a referir-me àquela panaceia de “O Segredo”) basta lembrarem-se que, por exemplo, os suecos tiveram que trabalhar muito mais dias do que nós - até meados deste mês de Junho - para atingirem o tal Dia da Libertação dos Impostos. Os mesmos suecos cuja selecção nacional de futebol não conseguiu, sequer, atingir os oitavos-de-final do Europeu (o que a nossa conseguiu) que ainda se está a disputar.

Coitados, esses sim, de tanto sofrer, têm razões de sobra para andarem macambúzios.

quarta-feira, junho 25, 2008

A verdadeira amizade


terça-feira, junho 24, 2008

“O Afilhado”

Vitorino Nemésio

1901 - 1978

Vitorino Nemésio, natural da Ilha Terceira (Açores), foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo e historiador.
Era um grande comunicador e aliou a uma vasta erudição uma capacidade da intuir imagens da grande intensidade poética.
Foi considerado um dos grandes escritores portugueses do século XX.



De Vitorino Nemésio, “O AFILHADO”




O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de controle e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio ecléctico,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Mas deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são...

O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de coiro para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.
E ganhas...? – lhe pergunto.
Vinte paus, meu Padrinho,
E não posso beber vinho.
Nem um copinho,
Meu Padrinho!

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas – mudemos de assunto.



segunda-feira, junho 23, 2008

Coisas que nós não percebemos



Ao cidadão comum custa a aceitar que as figuras poderosas que manipulam e que traficam influências, que não pagam as suas contribuições, que fecham empresas de forma fraudulenta e a quem são imputadas as mais diversas e importantes burlas, acabem por ficar absolutamente impunes perante a justiça. A eles nada acontece e parece fazer sentido pensar que “o crime compensa”.

Os grandes figurões que a opinião pública suspeita que tenham cometido as maiores aldrabices, não foram, até agora, condenados pelas suas tropelias. Todos eles ... com excepção de Vale e Azevedo que é bem o símbolo da velha máxima “a excepção confirma a regra”.

Não pensem, todavia, que o meu benfiquismo me leva a pensar que Vale e Azevedo é uma vítima e que foi perseguido injustamente pela justiça e por todas as outras forças do mal que o queriam ver derrubado. Não, o que digo é que o antigo presidente do Benfica é o único que já foi condenado e preso enquanto que os outros ... vamos a ver. Não conheço os processos, só sei o que transparece pela comunicação social e não tenho competência para julgar quem quer que seja. Apenas olho, escuto e penso.

Mas o que sei, e sabem certamente os tais cidadãos comuns, é que Vale e Azevedo está fugido à justiça portuguesa, tem um mandato de detenção europeu e ninguém lhe deita a mão. Isso porque ele está em parte incerta e ninguém o consegue descobrir? Não, ele nem se deu ao trabalho de se esconder numa ilha do Caribe ou qualquer outro lugar longíquo.

Vale e Azevedo está a viver, há dois anos, no bairro mais caro de Londres, numa luxuosa casa com quatro andares, no valor de 15 milhões de euros e é também proprietário de um Bentley no valor de 380 mil euros.

E toda esta vida faustosa e alegre se passa a uns miseráveis cem metros da embaixada portuguesa. Portanto, a escassos minutos de território nacional.

Então, pergunta-se, por que é que ainda não o prenderam e extraditaram? Se foi condenado (e só não foi preso por se encontrar fora do país) e se existe um mandato de detenção, as autoridades estão à espera de quê?

Este é um mistério que nós, cidadãos anónimos, não conseguimos perceber.


Quem sabe, sabe

Entre o “Quem Sabe, Sabe” de 1957 (concurso da RTP) e o de 2008 (passatempo da SIC, actualmente e a várias horas) existem duas coisas em comum e uma diferença.

Quanto às coisas em comum, quer no concurso quer no passatempo, a primeira é que o nome é exactamente igual e, a segunda, é que ambos visavam/visam testar o conhecimento dos telespectadores.

A diferença é que em 1957 o programa era um concurso, aliás o primeiro concurso da televisão em Portugal, exibido no único canal televisivo existente à época (RTP), apresentado por Artur Agostinho, enquanto que o programa de 2008 (da SIC) é, apenas, um conjunto de passatempos.

E, a grande questão (dialecticamente falando porque, com esta conversa, não vamos resolver os graves problemas do país) é reflectir sobre o que é, afinal, um concurso ou a que se destina um passatempo. Provavelmente chegaremos à conclusão que entre estes dois tipos de programas existe uma diferença abissal, pese embora a maioria dos concursos não sejam mais que uns meros passatempos.

Contudo, um nome como este - Quem sabe, sabe – parece indiciar não uma simples avaliação de conhecimentos mas uma erudição e uma sabedoria mais profunda e mais alicerçada em cultura geral. E, este, era o âmbito do concurso que foi estreado em 5 de Abril de 1957.

O “Quem sabe, sabe” da SIC apenas quer sondar os seus espectadores com perguntas banais sobre as novelas que o canal de Carnaxide apresenta, como saber qual a profissão de uma personagem, qual o grau de parentesco entre as diversas figuras das histórias ou quais os pormenores do enredo das diferentes telenovelas, a troco de 500 euros para as respostas certas, e mais rápidas.

No concurso referido pretendia-se premiar quem mais soubesse. No programa de passatempos, basta ser fiel à estação e conhecer meia dúzia de trivialidades.

E a pergunta que sempre faço quando o azar me leva até este passatempo, é a seguinte: por que carga de água é que o programa da SIC se intitula, pomposamente, “Quem sabe, sabe”? Não bastaria chamar-lhe apenas, e só, “Tele-Concurso” ou qualquer outra coisa do género?

sexta-feira, junho 20, 2008

Vai um cafezinho?


Tinha champanhe a gelar para vos servir hoje, caso derrotássemos a selecção alemã mas, como perdemos, resta-me oferecer um café quente, estimulante (que agora bem necessitamos) e, sobretudo, um belo café.


Pode não vos saber tão bem como o que costumam beber a esta hora mas, na falta do cheiro intenso e do paladar único, têm a oportunidade de se deliciar com a arte com que três cafés de Vancouver, Canadá, conseguem misturar café, natas, leite e imaginação.


Demasiado bom para beber, não acham?



quarta-feira, junho 18, 2008

À luz de ...



Vamos a ver se nos entendemos. Se na minha casa se consome electricidade é natural, e justo, que eu pague a despesa relativa ao fornecimento desse serviço. Ao fim e ao cabo é o respeito pela velha máxima do “utilizador pagador”. Tiro proveito, logo, pago.


Agora, saber que há por aí uns quantos fulanos (particulares e empresas) que não costumam pagar as suas facturas e a quem nada lhes acontece, a mim não me parece nada bem. E ainda me parece pior quando a fornecedora da energia – a EDP, aquela mesma empresa que, ainda há pouco, aumentou os seus administradores 118%. – propôs que toda essa importância que lhe é devida fosse paga pelos clientes que ainda costumam cumprir as suas obrigações. Ou seja, os clientes cumpridores vão ter que pagar as dívidas dos faltosos.

E a proposta – tão chocante
como inesperada - foi bem acolhida pela ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos).

Já nos basta ter que pagar a electricidade muito mais cara do que no resto da Europa. Em Portugal, o preço sem impostos foi, em 2007, superior em 21,1% ao preço médio comunitário. E se a análise for feita por países a diferença, em relação a alguns deles, é ainda maior. Por exemplo, em 2007, o preço da electricidade em Portugal sem impostos era superior em 114,8% ao da Grécia, em 41,4% ao de Espanha, em 30,5% ao da Suécia e em 61,9% ao da Dinamarca. Não chega?
Estes preços bastante mais altos do que os praticados pelos nossos parceiros da UE justifica, em parte, os lucros fabulosos da empresa. Recorde-se que, no ano passado, a EDP teve um resultado líquido de 907,3 milhões de euros. Não admira, pois, que o seu logótipo seja um sorriso seguido da “assinatura” “Sinta a nossa energia”.

Ora, uma empresa com tamanhos resultados (e a ainda que os não tivesse) deveria fazer aquilo que é normal em qualquer empresa séria. À luz das boas práticas empresariais, mas também da ética e da justiça, a EDP deveria fazer reflectir os seus prejuízos (provocados pelos “incobráveis”) numa rubrica de custos. Mais nada.

Entretanto, e uma vez que a proposta ainda vai ser submetida a discussão pública, foram adiantando que se os clientes (os tais ingénuos que continuam a pagar) tiverem mesmo que assumir o pagamento que os outros negaram, será imputado a cada um qualquer coisa como 1 euro.

Não é esse valor, portanto, que mais estimula a minha indignação. Para mim trata-se, apenas, de uma questão de princípio.


terça-feira, junho 17, 2008

Esta Lisboa que eu amo




Lisboa continua a ser a minha cidade. Não só porque nasci cá mas porque continua a ser uma cidade belíssima, onde gostamos de estar, onde temos prazer em calcurrear as ruas e ruelas das colinas até à baixa, enquanto admiramos a traça típica dos bairros populares e a esplêndida calçada portuguesa.

Claro que há outras cidades no mundo igualmente belas, mas Lisboa tem um não sei quê que nos atrai, nos puxa e faz ter saudades continuamente, apesar de já ter sido mais limpa e mais cuidada.

Comparando com a Lisboa de há 40 anos atrás, constata-se que falta vida em Lisboa. O centro histórico está desertificado (já ninguém cá habita), o comércio tradicional está a morrer todos os dias, não há esplanadas nem espaços verdes suficientes para atrair os (poucos) residentes e quem nos visita. O ar é cada vez mais irrespirável, a poluição sonora é insuportável, os prédios mais antigos estão a ruir e muitos dos que ainda se vão aguentando estão sujos, como sujas estão as ruas. As mesmas ruas cujos pavimentos estão miseravelmente mal-tratados e de onde verdadeiras crateras vão nascendo um pouco por todo o lado.

Resta-nos em Junho os jacarandás em flor que nos fazem sonhar com a Lisboa de outras épocas e resta-nos ainda o sol, a luminosidade única e a beleza de uma cidade que, apesar de tudo, continua linda.

De degrau em degrau

Depois das greves dos pescadores vieram as dos camionistas e as das empresas de reboques e, seguir-se-ão em breve, as dos agricultores, dos taxistas, dos bombeiros e as das restantes corporações que por aí existam. Todas elas com reivindicações justíssimas, certamente, e a terem que ser tomadas em devida conta pelos responsáveis governamentais.

E terão que o fazer muito a sério, digo eu, porque, como vimos na recente greve dos camionistas (não seria, antes, um lockout em que os empregadores usaram abusivamente os seus empregados?), o país mostrou-se demasiado vulnerável às investidas deste tipo de paralisações e pode muito bem suceder que um dia destes pare completamente. Aliás, isso esteve quase a acontecer e só foram necessários três dias de greve.

Mas, de degrau em degrau, chegará a vez de um outro grupo se manifestar – o dos reformados e pensionistas. E o que poderá vir a acontecer se ele começar a tomar posições mais duras? Nada, rigorosamente nada. Enquanto que os camionistas ameaçaram provocar o caos com uma argumentação convincente – a da força – os reformados e pensionistas por constituírem apenas uma fonte de custos, não têm qualquer poder negocial nem argumentos capazes de assustar os governantes.

A única esperança que lhes assiste é a manutenção da denominada consciência social que, de tempos a tempos, ainda faz espevitar o governo que, então, se digna olhar para quem já não está na vida activa nem tem voz nem força para fazer valer os seus direitos.

E é importante que se olhe com atenção para este grupo que está a crescer exponencialmente. Começa a ser difícil prever quais serão as consequências que poderão advir para o comércio, indústria e economia em geral se toda esta gente deixar de comprar. Não por quererem desafiar o governo mas por que, com tão reduzidas reformas/pensões, já não têm sequer condições para continuarem a viver.

domingo, junho 15, 2008

A importância dos nomes

Ninguém está livre de ter pais, familiares, amigos ou padrinhos que, na hora do registo, nos queiram dar um nome que apenas existe no seu imaginário ou, pior ainda, com um nome de gosto duvidoso que, partir daquele momento, doravante e para o futuro, nos irá marcar indelevelmente.

Há os nomes bonitos, os que recordam pessoas de família, os que são moda em determinada época, os que homenageiam pessoas célebres do futebol, da ciência, do pensamento ou do cinema e os que não lembram ao diabo e que, os recém-nascidos por serem indefesos, têm que carregar pela vida fora. Todos nós conhecemos muitos nomes desse tipo.

Um jornal deste fim-de-semana dava conta de uma jovem sãotomense que em Abril passado se naturalizou portuguesa. Nos seus 27 anos de vida, esta senhora suportou todos os vexames, todos os gozos, todas as piadas e todos os risos na escola, na segurança social, nos hospitais e no SEF, só por que se chama Disneylandia. Disneylandia da Cruz do Espírito Santo, de seu nome completo. E a coitada, sabe-se agora, sempre viveu revoltada com tal desgraça, cuja culpa é atribuída a um folheto turístico sobre a Disneylandia americana que havia na conservatória do registo civil.

Como notas curiosas, que não a aliviam, diga-se que uma das testemunhas da cerimónia foi um indivíduo chamado Napoleão Bonaparte e que a sua irmã mais nova tem um nome também peculiar - Wonderlyza.

Quanto à (má) sorte de Disneylandia pode-se dizer que podia ter sido ainda pior. Imaginem se na conservatória, o pai, em vez de olhar para o prospecto turístico, tivesse deitado o olho para a placa que aconselha “Fila Única” ou para uma outra que indica “Certidões”.


quarta-feira, junho 11, 2008

Sopa para os deputados, já


Nem queria acreditar quando ouvi o António Barreto dizer na SIC Notícias que, há dias, uma denominada “Confraria das Sopas” ofereceu sopa aos deputados da Assembleia da República. Sopa leram bem. Não, ao que consta, uma daquelas que fazem lembrar as que as nossas avós cozinhavam, mas uma sopa de pacote.

Ao que parece, este tipo de iniciativas já teve antecedentes. Terá já havido um dia das cerejas e outros dias dedicados a outros produtos.

Julgava eu que em S. Bento os eleitos do povo se dedicavam exclusivamente à elaboração das leis, se possível bem feitas e exequíveis. Compreendo agora que nem sempre isso é possível porque os deputados estão empenhados em deglutir os géneros que lhes são oferecidos pelas diversas “Confrarias” ou quejandas.

Depois da sopa do Sidónio, muito popupar nos idos anos quarenta do século passado, começaram a aparecer as várias sopas dos pobres e, agora, a sopa para os deputados.

Eu acho bem. Afinal consumir sopa com regularidade faz bem à saúde e, dizem, inspira as mentes.

terça-feira, junho 10, 2008

O dia de Portugal



Como se não tivessemos já problemos que cheguem para nos preocupar (será que vamos conseguir ganhar o europeu de futebol? Afinal, o Cristiano Ronaldo vai ou não para o Real Madrid?) ainda tinha que nos acontecer agora mais uma desgraça.

Então não é que o Presidente da República afirmou que hoje se comemora o “Dia da Raça”? Logo a primeira figura da Nação (depois do Cristiano) que, sem pudor, foi ao fundo do baú buscar uma terminologia fascista, racista e segregadora que se usou durante o Estado Novo?

Claro que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista se apressaram a mostrar a sua “perplexidade” pelo facto do PR ter usado tal expressão e exigiram que ele esclarecesse o sentido das suas afirmações. Houve até alguns senhores que chegaram a comentar que, provavelmente, o Presidente não terá recuperado até hoje do trauma de ter militado na Mocidade Portuguesa.

Calma meus senhores, o caso não é assim tão grave. Cavaco Silva, reconhecemos todos, não possui o dom da oratória. Por isso se refugia tanto nos silêncios e nas palavras meias ditas. Durante anos ainda arranjou alguns estratagemas para não falar - a boca cheia de bolo-rei e, mais tarde, o famoso tabu, recordam-se?. Agora já vai dizendo algumas coisas mas procurando que as palavras saiam a conta-gotas para ter tempo de pensar muito bem no que vai dizer. Exige-se-lhe, como aos demais responsáveis políticos, contenção verbal e rigor nas afirmações, mas atribuir um significado especial – e político - a um mero “deslize linguístico” que, na minha opinião, mais não é que o recuperar de uma frase ouvida ao longo de muitos anos, parece-me exagerado.

E, afinal, porque é que o Presidente falhou? Simplesmente por ter afirmado, ao tentar fugir a uma pergunta incómoda, “Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.

O busílis, portanto, foi o de ter dito que o 10 de Junho era o dia da “Raça”, a expressão que o antigo regime chamava ao dia de Portugal. E se não se deram ao trabalho de ir consultar o dicionário, eu digo-lhes que a palavra “raça”, qual impropério, significa, entre outras coisas “conjunto dos ascendentes e dos descendentes de uma família ou de um povo, geração”. Portanto, o PR nem sequer cometeu um erro de linguagem, do ponto de vista semântico.

Então, hoje dia 10 de Junho, feriado nacional, comemora-se o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.
Hoje, porque amanhã, quarta-feira, joga-se o Portugal – República Checa e, aí sim, para além do rigor exigido está também em causa o orgulho futebolístico nacional. O resto são cantigas.

segunda-feira, junho 09, 2008

Junho, um mês complicado

Vá lá, começámos bem. Apesar de todo o entusiasmo e fervor demonstrado pela nossa selecção de futebol, havia algum receio de que a equipa pudesse claudicar, tanto mais que a fase de qualificação não nos tinha corrido da melhor forma. Corrigidos os problemas, a selecção portuguesa venceu por 2-0 a Turquia, no primeiro jogo da fase final do Campeonato da Europa realizado em Genebra. Jogámos bem, fomos indiscutivelmente a melhor equipa em campo e merecemos vencer.

Já aqui afirmei, em tempos, de que gosto de futebol, sobretudo quando bem jogado. Mas o gosto por esta modalidade não me faz “devorar” os jornais desportivos e os programas sobre futebol que são transmitidos pelos canais de televisão. Não tenho pachorra sequer para ler e ouvir todas as notícias relativas aos jogadores e à selecção, nem para acompanhar as inúmeras e infindáveis crónicas de todos os jornalistas desportivos que não param de analisar as estratégias, as tácticas, as preocupações, as motivações e desmotivações da equipa técnica e dos jogadores, os mesmos que são alvo das maiores especulações sobre as suas vidas profissionais e pessoais, que chegam ao cúmulo de desvendar os mais ínfimos pormenores, incluindo os seus amores e desamores, o que comem, o que vestem e quantas vezes vão à casa de banho.

E o interesse do zé-povinho é tanto que no dia em que a selecção partiu para a Suiça, os quatro canais generalistas de televisão e mais a SIC Notícias apresentaram, em simultâneo, reportagens em directo da deslocação da equipa até ao Palácio de Belém (para uma cerimónia com o Presidente da República) e, daí, até ao aeroporto.

Nesse dia, e durante algumas horas, o país parou perante tão relevante facto. Os telejornais abriram com as mesmas reportagens que já tinham exibido durante a tarde e com elas ocuparam muito mais de metade do tempo que estava destinado a todas as notícias do país e do mundo.

Mas, aquilo que mais me surpreendeu, foi ouvir o senhor Presidente, com a simpatia e a boa-educação próprias de um anfitrião, afirmar aos jogadores, à sua equipa técnica e aos seus dirigentes, que era uma grande honra recebê-los.

Alguma coisa ter-me-á escapado, certamente. Ou então houve aqui uma troca de hierarquias que ninguém percebeu. Não deveria ter sido antes a comitiva a manifestar a honra por serem recebidos pelo Senhor Presidente da República?


Sempre tive a convicção de que existe um grande exagero no papel que o futebol assume na vida da maioria dos portugueses. Aliás, acho que toda esta euforia, esta loucura se assim me posso exprimir (com todo o respeito que tenho pelas pessoas), parecem ser completamente despropositadas. Nós, portugueses, não temos grandes motivos para andar satisfeitos. Ao contrário, os nossos problemas são tão graves que não me parece que haja sequer vontade de andar por aí com tamanhas demonstrações de felicidade.

A não ser que as inúmeras dificuldades que sentimos e as consequentes frustrações por as não vermos resolvidas, tenham como contrapartida, e como escape, as emoções prestadas pelo fenómeno futebol e os seus actores, que têm tanto de entusiasmantes como de irracionais. Ou seja, as nossas desilusões acabam por ser substituídas por todos aqueles júbilos levados à mais alta expressão.

E isto ainda agora começou. Vai ser um mês bastante agitado. Sobretudo se a nossa selecção conseguir ultrapassar os obstáculos que irá ter pela frente. E espero bem que consiga vencê-los a todos. Ficaria muito feliz. Mas, atenção, é cedo ainda para começar a cantar vitória. Todos sabemos como nós passamos da euforia à depressão num ápice.

Por isso preparem-se. Este mês de Junho vai ser bem cheio de jogos, resumos, notícias, reportagens, directos, entrevistas e opiniões. Tudo vai ser dissecado até à exaustão.

Com tanta dose de futebol, Junho vai ser um mês que nos exigirá muita resistência.

sexta-feira, junho 06, 2008

De Espanha ...

Já aqui me referi, em tempos, à velha expressão “De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”.

São, evidentemente, ditos antigos que valem o que valem mas que, se estivermos atentos, não serão tão disparatados como pode parecer à primeira vista.

É certo que os dois países ibéricos são "irmãos" (até costumamos chamar-lhes “nuestros hermanos”), com excelentes relações sociais, políticas e económicas, mas, de tempos a tempos, sente-se que o irmão maior tem a tentação de “roubar” algumas coisas ao irmão mais pequeno. E, garanto, que este pensamento não é fruto de um hipotético complexo de inferioridade.

Foi o que aconteceu no tempo da monarquia quando os Filipes espanhois assentaram arraiais cá deste lado. Foi o que aconteceu quando os nossos vizinhos começaram a comercializar um vinho do Porto “fabricado” do lá de lá da fronteira, quando aquela mistela não só não era produzida no Douro como nunca poderia ostentar o nome da nossa marca registada. Foi o que aconteceu recentemente quando um empreendimento de Ayamonte – o Costa Esuri Golf Club – publicou no último número da revista Algarve Golf Guide um anúncio, todo em inglês, que localiza a sua empresa no Algarve Espanhol.

A ideia abstrusa de fazer crer que Ayamonte pertence a um inexistente Algarve espanhol, não passa de uma utilização absolutamente abusiva e fraudulenta de uma marca que é – ainda – genuinamente portuguesa. E convém recordar que já não é a primeira vez que o nome do nosso Algarve é utilizado para promover interesses imobiliários espanhois.

Mas o fim deste triste incidente não se deveria resumir a uma simples e hipócrita justificação de uma infeliz campanha publicitária. Em minha opinião, o caso legitima que, pelo menos, as nossas autoridades peçam explicações sobre o sucedido ao Estado espanhol.

quarta-feira, junho 04, 2008

Bom dia Vizinho

Na semana passada comemorou-se o Dia Europeu dos Vizinhos. Mais um dia de celebração internacional de que eu nunca tinha ouvido falar.

É verdade, nunca tinha ouvido falar em tal. Nem sequer dei conta que o comércio em geral tivesse feito qualquer campanha no sentido de nos levar a comprar uma lembrança para assinalar a efeméride, como sempre acontece quando se celebra um dia de qualquer coisa, nacional ou internacional.

Até por que, com a forma apressada como temos vivido nestas últimas décadas, nem nunca me passou pela cabeça que alguém se lembrasse de inventar um dia dedicado aos vizinhos, quando o próprio conceito está morto e enterrado há muito.

Quem é que hoje em dia conhece bem os seus vizinhos? Melhor, quem é que sabe quem são os seus vizinhos? Quem é que “tem tempo” para promover junto deles gestos de solidariedade e de ajuda? Quem é lhes dedica maior atenção do que uma simples e formal saudação de “Bom-Dia” ou de “Como está”?

Longe vão os tempos em que num prédio, numa rua, todos se conheciam e se interessavam pelas vidas uns dos outros (não estou a falar da coscuvilhice, que também existia, evidentemente), pela sua saúde, pela forma como de alguma maneira poderiam ajudar no que fosse necessário. Auxílios e favores que muitas vezes passavam por ficar com um miúdo enquanto os pais iam resolver qualquer assunto, por fazer companhia a um idoso que ficava sózinho em casa ou, até, por corresponder a um pedido de “empréstimo” de um pezinho de salsa ou uma chávena de açúcar, solicitação justificada normalmente pelo adiantado da hora, ou, na maioria dos casos, pela necessidade de um convívio social, muito comum noutras épocas e considerado agora como completamente desajustado.

Hoje, nem no próprio prédio em que habitamos conhecemos todos os outros vizinhos. Não sabemos os seus nomes nem o que fazem. Muitas vezes não sabemos sequer se são altos ou magros, pela simples razão de que nunca nos cruzámos. Quando muito, juntamo-nos numa reunião anual de condóminos a que, aliás, muitos faltam.

E se não os conhecemos, como podemos fomentar as relações com a vizinhança? Não podemos. Andamos demasiadamente ocupados com as nossas vidas stressadas, angustiadas e egoístas para nos determos em minudências, em detalhes que mais não são que a vida das pessoas que vivem paredes meias connosco.

Por sorte, no meu prédio vivem apenas dez famílias. Apesar disso, em três das fracções não faço a mínima ideia de quem lá vive. Estranho, por isso, quando me cruzo com desconhecidos no hall de entrada e o meu cumprimento não vai além de uma mero acto de boa educação. Será que vivem no edifício ou serão visitas de alguém?

Ainda assim, tenho o consolo de ouvir com frequência da boca de uma das moradoras:

“Bom dia, vizinho” ou, “Tá tudo bem, vizinho?”



terça-feira, junho 03, 2008

O abismo final

Apesar das manifestações de preocupação que ficaram patentes nos meus textos de ontem e de anteontem, parece que todos os indicadores disponíveis mostram que os portugueses continuam a viver muito acima das suas possibilidades. Apesar da precariedade de emprego ser uma realidade e o poder de compra continuar a baixar significativamente, dá a impressão que as famílias procuram tornear as dificuldades com o pensamento de “se isto está cada vez pior, vamos mas é aproveitar agora que depois logo se vê”.

É nesta lógica que eu entendo que só no primeiro trimestre deste ano a venda de carros novos tenha aumentado 4,5%, os portugueses tenham esgotado as viagens para o Brasil, os restaurantes e hoteis continuem a registar boas taxas de ocupação e o Rock in Rio deste ano tenha tido audiências enormes, apesar dos preços não serem propriamente baratos.

E se é certo que entre 2003 e 2007 o crédito concedido às famílias aumentou 50% também é verdade que, de acordo com a informação do Banco de Portugal, o crédito malparado cresceu 40% e que, segundo a DECO, há 100 mil famílias com a corda na garganta, prestes a deixarem de poder cumprir as obrigações para com os seus credores.

Perante esta contradição de ter, por um lado, portugueses a consumirem mais e, por outro, a recorrerem ao crédito que não sabem se podem pagar, sou levado a concluir que o pensamento dominante será o de gozar hoje porque amanhã pode ser tarde.

E a incoerência é ainda mais gritante quando se registam padrões elevados de consumo e, ao mesmo tempo, um maior número de famílias, muitas de extractos sociais até aqui considerados da classe média-alta, estarem a recorrer a instituições de solidariedade por se encontrarem em situação económica muito difícil.

Quanto àquilo que, em tempos idos, representava para as pessoas um factor de segurança – a poupança – tem tido uma expressiva descida e, a prová-lo, apenas 13% dos portugueses pretendem poupar este ano, menos de metade da média comunitária.

A situação é preocupante e agrava-se cada vez mais. O dinheiro não chega para tudo e as famílias têm que fazer opções. Ainda que sejam as de individar-se continuamente para aproveitar os prazeres da vida. Antes do abismo final.

segunda-feira, junho 02, 2008

Preocupado – II

Tenho que admitir que, depois de uma semana de ausência, a ideia de restabelecer o nosso contacto com dois textos seguidos mais ou menos toldados de nuvens agoirentas, não foi muito feliz.

Mas, como vos dizia ontem, a verdade é que não sou um pessimista nato e apenas tento interpretar os sinais que vão sendo tornados públicos.
As dificuldades do dia-a-dia são cada vez maiores e afectam, sobretudo, a ainda existente (mas moribunda) classe média e, naturalmente, os mais pobres, para quem as dúvidas são cada vez mais profundas e as pessoas já quase perderam a esperança de ver a luz ao fundo do túnel.

Dificuldades que, certamente, se avolumarão a breve prazo e que nos obrigarão, para que possamos sobreviver, a que tenhamos que mudar muitos dos nossos hábitos.

Depois das crises do pós-guerra e a de 1993, habituámo-nos a viver com coisas que agora achamos tão naturais como o respirar e estamos na eminência de ter que virar a página e aceitar que não temos outra alternativa senão mudar radicalmente as nossas rotinas e muitos dos nossos prazeres.

Ainda há dias o guru californiano que inventou o “teletrabalho” afirmou que o bem-bom tinha os dias contados e deu como exemplos a necessidade de começarmos a pensar em novos carros menos gastadores e mais ecológicos (o automóvel vai deixar de ser um símbolo de “status social”), o de termos que reduzir ou prescindir das viagens de avião, que se tornarão um luxo, e de termos obrigatoriamente de estar mais atentos aos nossos comportamentos diários, nomeadamente com a utilização racional e parcimoniosa da água, se não quisermos que, num futuro próximo, os nossos “vícios” se virem contra nós e dêm cabo da nossa existência.

É, também, por coisas como estas que vou ficando preocupado. Cada vez mais preocupado.


domingo, junho 01, 2008

Preocupado

Não sou propriamente daqueles a que se costuma chamar de pessimista. Digamos que sou um optimista que gosta de ter os pés bem assentes na terra e de olhar para o que se passa à sua volta com olhos de ver. Um optimista céptico, se quiserem. Mais do que isso, um realista.

E a verdade é que, face às várias crises que desabaram sobre as nossas cabeças e mais aquelas que estão latentes, e perante todos os problemas de ordem estrutural e conjuntural associados, não temos grandes motivos para estar optimistas.

Os aumentos dos combustíveis e dos bens alimentares a nível mundial, que arrastaram todos os outros aumentos e que, tendencialmente, não pararão de subir, é um motivo mais do que suficiente para atormentar toda a gente.

Pouco me importa se tudo o que está a acontecer é resultante do “subprime” americano, da desvalorização do dólar, do aumento imparável do preço do petróleo, do custo cada vez maior dos produtos alimentares, dos negócios gananciosos de especuladores sem escrúpulos ou se a culpa de toda esta loucura pode ser imputada aos milhares de cidadãos dos chamados países emergentes que, de repente, começaram a ter acesso a todos aqueles produtos que estavam, até há pouco, acessíveis apenas aos habitantes do mundo ocidental. Tanto me faz.

O que sei é que perante esta manifestação global de uma economia doente, não tenho qualquer razão para acreditar que, num futuro próximo, tudo irá melhorar e entraremos sorridentes num novo ciclo de prosperidade.

Portugal é uma pequena economia aberta que abana quando os ventos se tornam mais fortes. Mesmo que as medidas que têm sido tomadas pelo Governo sejam as mais adequadas, a verdade é que os portugueses estão cada vez mais aflitos.

Os compromissos que assumiram com a aquisição de casas, de carros e de outros bens de consumo, tornaram-se cada vez mais difíceis de cumprir. Sobra pouco para alimentação e vão-se fazendo verdadeiros milagres para ir, ainda, comendo. Só que há milhares de pessoas que já não conseguem fazer milagres.

O “emagrecimento” e o encerramento de muitas empresas tornou-se uma realidade constante que trouxe mais desemprego, mais dificuldades, mais fome e mais desespero.

E tudo isto não augura nada de bom. Todos estes presságios costumam gerar convulsões sociais graves, cujas consequências são imprevisíveis.

A tampa da panela de pressão começa a mostrar-se inquieta e parece pronta a rebentar.

Estou, portanto, preocupado. Muito preocupado.