quarta-feira, janeiro 15, 2014

Afinal, este país é para quem?







Mau, ainda no último dia me referi aos "velhos" reformados que, pelos vistos, pouca serventia têm, e já estou hoje, de novo, a bater na mesma tecla. E tenho razões para isso porque tenho observado, para meu desprazer, que existe uma obsessão com os reformados e com os velhos de uma forma geral, um certo instigar à luta entre gerações, muitas das vezes, oriunda da parte de quem nos Governa.


Mas hoje a história tem a ver com um artigo escrito há duas semanas pelo sub-director do "Expresso", João Vieira Pereira, com o título "Este país é velho, de velhos, e para velhos", todo ele um bota abaixo, desde logo para com os velhos mas também com o Tribunal Constitucional e com a própria Constituição.

É perigoso fazer extrapolações de um texto, ainda por cima longo. Corre-se o risco de especular em ideias "tiradas do contexto" que, por junto, quereriam (eventualmente) dizer outra coisa. Ainda assim, as palavras estão lá, com as letrinhas todas e as citações que se seguem não terão, a meu ver, interpretações que possam suscitar dúvidas por aí além. Como por exemplo:

"os velhos querem manter aquilo que dizem ter conquistado. E muitos dos novos ambicionam apenas ter o que os velhos têm. Injusto? Para quem? É mais injusto reduzir os pretensos direitos adquiridos (expressão que me causa calafrios) ou hipotecar o futuro dos jovens?


Se pudesse escolher entre cortar pensões e reduzir o emprego jovem que está nos 44% qual escolheria? ... as gerações mais velhas estão a matar a esperança dos mais novos".


Se compreendo que uma boa parte do Orçamento do Estado vai para salários, pensões e prestações sociais e que a sustentabilidade das contas públicas está gravemente ameaçada, repudio totalmente esta guerra aberta contra os velhos.


Durante anos a fio eles trabalharam, em muitos casos sem as condições mínimas exigíveis, em muitíssimos casos sendo explorados por número excessivo de horas de trabalho e baixas remunerações e cumprindo as suas obrigações fiscais. Que culpa lhes podem agora ser imputadas sobre as dificuldades do país?

Que culpa têm eles de que um dos problemas estruturais mais graves deste País seja a sua baixíssima taxa de natalidade? E sobre insustentabilidade da nossa segurança social também foram eles que falharam? Eles a quem muitas vezes lhes fizeram descontos nos salários, descontos esses que nunca foram entregues pelos patrões.


São os velhos que têm culpa que a economia esteja num tal estado que obrigue os jovens a emigrar e que, deste modo, não possam contribuir com os seus descontos para o pagamento dos que já estão reformados?


São ainda estes velhos sem préstimo que têm a culpa dos cortes na educação e na investigação e das taxas de desemprego?


Para além de uma completa insensibilidade social, esta gente é incapaz de pensar para além do orçamento de cada ano. E têm o despudor de considerar os "direitos adquiridos" (leia-se, as justas expectativas criadas por pensionistas e reformados a uma reforma - para a qual descontaram - tranquila e com dignidade) um privilégio. E afirmar que "as gerações mais velhas estão a matar a esperança dos mais novos", é uma perfeita afronta a quem tanto lutou e sofreu durante anos e anos.


Portugal não é definitivamente um país para os velhos, tão-pouco para os jovens que não têm futuro. Afinal, este país é para quem?





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